Bacurau: A fábula dos forasteiros que se meteram com os nordestinos

Texto por: Paulo Ferreira

Existe um ótimo motivo para Bacurau ser tão comentado e ter gerado filas nas portas dos cinemas para as suas pré-estreias: Bacurau é um filme único. Em vez de procurar um gênero para se encaixar, a obra busca ser ela mesma. É ficção científica, mas também é faroeste. É ação, mas também é drama. Só que isso não significa que o filme também esteja livre de se espelhar na realidade, muito pelo contrário – ele é uma peça de crítica política tão atual que chega a ser surpreendente, mesmo que o filme diga nos primeiros minutos que se passa em um futuro próximo.

No cerne da história está Bacurau, uma pequena e diversa cidade no nordeste brasileiro. Enquanto os moradores sofrem com a falta de água, a cobertura da internet nunca falha. É um daqueles vilarejos pequenos, em que todo mundo se conhece – eles têm até um grupo do WhatsApp para se comunicarem rapidamente. É assim que eles descobrem quando o prefeito da área está chegando para poderem se esconder dentro de suas casas e evitar olhar na cara do político sacana que vem entregar mantimentos vencidos e livros velhos apenas na época da eleição. Não tem como ser mais brasileiro do que isso.

O pequeno vilarejo foi abalado pela morte da matriarca da cidade, Carmelita, quando coisas suspeitas começam a acontecer. Primeiro os cavalos de um sítio vizinho fogem para Bacurau no meio da noite. Depois o caminhão-pipa da cidade aparece furado por balas e, logo em seguida, dois pilotos de motocross “forasteiros” entram na cidade. Quando dois moradores de Bacurau vão devolver os cavalos do sítio e descobrem todos os moradores mortos por tiros é que as coisas realmente viram de ponta-cabeça.

É difícil falar mais sobre o filme sem estragar a experiência de vê-lo pela primeira vez sem saber o que esperar. Mas todo esse suspense funciona tão bem no filme que você vai querer descobrir sozinho o que acontece com os moradores de Bacurau. Mas espere uma tonelada de chumbo, alguns litros de sangue e uma pitada saudável de surpresa.

É impossível não ficar maravilhado pela fotografia com tons fortes que lembra muito o estilo de Glauber Rocha – afinal, Deus e o Diabo na Terra do Sol com certeza serviu de inspiração para os diretores de Bacurau, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Isso sem falar na trilha sonora, cujas músicas incluem Caetano Veloso, Nelson Ferreira e John Carpenter, mestre em criar temas marcantes – o que torna o filme ainda mais atemporal, com toques de passado e futurismo. Não dá para esquecer também das atuações excelentes do elenco de moradores de Bacurau, que chegam a ofuscar as (ótimas) atuações dos veteranos Sônia Braga e Udo Kier.

Mesmo depois de todos os ataques que o cinema brasileiro vem sofrendo do governo atual, este é um ano brilhante para nossas produções audiovisuais. Sendo reconhecido no exterior por diversas produções como Divino Amor (Gabriel Mascaro) e Democracia em Vertigem (Petra Costa), Bacurau é uma das melhores obras do ano – vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Munique, de três prêmios do Festival de Lima e foi primeiro filme brasileiro a ganhar o Prêmio do Júri em Cannes. Não perca a oportunidade de ir ver Bacurau no cinema, prestigiar o nosso cinema e se surpreender com um dos novos marcos do cinema brasileiro. E…