Independentes por natureza

Texto por Isadora Marques

Conversamos com as bandas Ceano e La Volta e com o produtor musical Cesar Zanin sobre a trajetória e permanência dentro do cenário musical independente

Ao se denominar independente, um artista implica em se desprender do relacionamento com grandes gravadoras. Ele precisa investir em si próprio de maneira autônoma para produzir um conteúdo sem a necessidade de seguir moldes. Conversamos com as bandas paulistas Ceano e La Volta e como o produtor musical Cesar Zanin sobre o vasto cenário independente.

A banda La Volta formada em 2011 afirma ter o intuito de fazer a música que gostaria de ouvir e transformá-la em um canal de expressão. “Com isso, a gente não se preocupa muito com os formatos. Ou o que a gente vai colocar na música, o tipo de letra...A gente faz o que realmente sente e o que acha válido naquele momento.”, diz o guitarrista da banda João Pedro Cesar. Mesmo com esse jeito mais despojado de compor, eles não deixam de criar certas coisas que sirvam para agradar o público mais geral ou colocar alguma música na rádio. “Porque hoje no meio independente, isso já é aceito, e me arrisco a dizer que ele pede isso”, completa.

Banda paulista La Volta formada em 2011.
Foto por Nariel Cristina

Mas existem muitas bandas que já estão na estrada há pelos menos dez anos e são conhecidas pelo grande público que seguem essa pegada mais alternativa. É o caso Dead Fish, Vespas Mandarinas e Fresno, que começaram no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 e romperam os laços com a gravadora em 2011.

O músico e produtor Cesar Zanin deu seus primeiros passos nos anos 1990 quando a situação da cena musical era diferente. "Na época, não tinha internet como aliada. Tudo era feito na base do material físico, gravação em estúdios. Hoje em dia há a facilidade de divulgar sua arte com a internet e, além disso, a parte técnica é muito mais acessível e é mais fácil fazer uma gravação do que na época que comecei", conta Zanin.

A banda Ceano, de Campinas, que se autoclassifica como Emopb, está na estrada desde 2013 e gravaram seu primeiro álbum de forma caseira e totalmente independente. André Vinco, guitarrista da banda explica que o começo da trajetória deles foi muito parecida com todos que vivem nesse segmento. “Acredito que o primeiro contato foi desde que a gente colocou o nosso primeiro CD nas plataformas de música digitais. E o começo foi do jeito que praticamente toda banda independente começa: sem dinheiro e sem apoio financeiro de ninguém. Foi aí que abraçamos o cenário independente e começamos a fazer nossas próprias coisas, nossos shows e nossas músicas”, afirma. Um dos desafios que a banda teve que enfrentar nesse início foi o fato de só tocarem músicas autorais.

Banda Ceano, natural de Campinas.
Foto: Izadora Nardi

Tem que pagar pra tocar?

Mesmo sendo um cenário alternativo, muitos produtores de festivais exigiam uma cota de ingressos vendidos pela banda para que conseguissem de fato tocar no lugar. “A gente já pagou muita grana para tocar. Teve um evento que precisávamos vender uns 80 ingressos e só conseguimos vender um pouco mais da metade e o resto tivemos que colocar do nosso bolso, senão a gente não tocava,” relembra César. Ele diz também que não vê problema na banda organizar um movimento de trazer público para a casa, mas acha que a forma antiga era bem exagerada.

Hoje Zanin mora em Londres, mas quando esteve no Brasil foi proprietário do Espaço Cultural Walden, na cidade de São Paulo, no período de 2012 até 2014, que foi fruto de suas andanças mundo afora tanto como produtor quanto como músico. "Fui vendo como as coisas para a música funcionavam de um jeito diferente fora do Brasil. E fiquei com vontade de abrir um lugar no Brasil, que agregasse as características dos lugares que vi fora”. Hoje o espaço já não existe mais por motivos financeiros. Porém, dentro dos dois anos de funcionamento, mais de 2 mil artistas passaram por lá e segundo Zanin, mesmo tendo o bar como a fonte central de renda – como a maioria das casas de show – o que movia o trabalho lá dentro eram os eventos com as bandas.

Show no porão do antigo espaço Walden em São Paulo
Foto: divulgação

Assim como o Walden, São Paulo tem diversos palcos que acolhem as bandas bandas independentes espalhadas pela cidade e isso tem sido um ponto muito alto para a sobrevivência das bandas dentro da metrópole. “A LaVolta já chegou a tocar, dentro de São Paulo, para quatrocentas, quinhentas pessoas, o que é um número bem considerável. Já abrimos para diversos artistas consolidados e tudo isso através do convite pessoal das casas. O pessoal reconhece nosso trabalho e com isso os convites vem naturalmente”, conta. Hoje a banda não enfrenta mais a questão das cotas de ingressos, mas mesmo sem a obrigação da venda eles sempre auxiliam nas vendas e em trazer pessoas para o show, como uma forma de troca com a casa.

Segundo Vinco a banda procura ter uma relação boa pros dois lados, fazendo o seu papel como banda, trazendo o público, tocando de maneira profissional e cumprindo o horário de cada show. Em troca, esperam que a casa tenha as mesmas atitudes respeitosas com o grupo. “A gente faz o que é bom para eles e o que é bom pra gente. Não gostamos de ser explorados e não exploramos, e isso gera uma boa relação com as casas, " completa.

Independente com orgulho

Mesmo com todas as parcerias boas que as bandas independentes conseguem, existem dificuldades enfrentadas no dia a dia entre divulgações, gravações e apresentações em shows. Zanin reforça que o mais difícil ainda é a parte financeira, já que, não existe uma estrutura dentro do meio toda voltada para o artista independente e iniciante.

Zanin também critica a sustentabilidade do cenário, citando que na internet você pode encontrar todos os tipos de bandas tocando, mas os espaços independentes por outro lado, estão lutando com unhas e dentes para se manter abertos. “A maioria dos artistas independentes no Brasil, mesmo que haja exceções, não quer ser independente, ele está nessa situação por ser a única opção. A grande massa de bandas quer ser dependente, depender de gravadora, assessoria, porque ser independente dá muito trabalho,” critica.

A banda Ceano aponta uma visão de que a música independente é a norma e por isso ela nunca vai deixar de existir, eles veem o mainstream como uma exceção à regra. E acrescenta também que é tudo uma questão de transformar a cultura das bandas, as casas de show e a forma que as pessoas frequentam os lugares. “Quando essas três coisas estiverem funcionando coerentemente entre elas poderemos contar com um meio termo, em que as bandas que não são gigantes e nem tão pequenas consigam se manter assim porque elas querem. O mainstream não é o objetivo final, as pessoas que não conseguem enxergar ou querem aceitar isso”, completa Vinco.

Ao final dessa discussão pode-se notar que o cenário independente, tem se mostrado uma escolha viável para milhares de músicos brasileiros. “A música independente está ganhando força em festivais, na televisão e até no rádio. Essa retomada trouxe firmeza para o cenário. Isso alavancou bastante a música brasileira: podemos ver trabalhos lindíssimos por aí e eu acho que isso só tende a melhorar”, finaliza César da LaVolta.