Resenha| Midsommar: o terror psicológico e existencial de Ari Aster

Texto por: Bruno Botelho

O diretor Ari Aster teve sua estreia marcada pelo terror psicológico Hereditário (2018) , que foi um sucesso de crítica, considerado um dos melhores filmes do ano e se consolidou como um forte nome do terror moderno. Um ano após o lançamento do longa perturbador estrelado por Toni Coletti, Aster surge com uma proposta diferente que encheu todo o público de expectativa – o misterioso Midsommar.

A proposta de Midsommar por si só já é bastante interessante: fazer um filme de terror sem o clima sombrio da noite. A campanha nacional do filme fez questão de evidenciar isso com o, desnecessário, subtítulo O Mal Não Espera a Noite.

Lançado pelo estúdio A24, que se tornou notório nos últimos anos no mercado independente com filmes como Moonlight (2016), Ex Machina (2015) e Hereditário (2018), o filme – assim como outros lançamentos da produtora – não se trata de uma produção convencional de terror. Portanto, não espere por sustos fáceis e clichês do gênero. Diferente do trabalho anterior do diretor, Midsommar não é necessariamente assustador, mas sim inquietante e perturbador pela sua construção psicologicamente carregada.

Foto: Divulgação

O filme mostra Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor), um jovem casal em um relacionamento prestes a desmoronar. Após uma tragédia familiar que os mantém juntos, Dani e Christian realizam uma viagem acadêmica com os amigos para um festival de verão em uma remota vila sueca. Porém, as festividades do solstício de verão na Suécia dão um rumo sinistro as suas férias.

Ari Aster, em primeira análise, faz um filme sobre seita, evocando filmes como O Homem de Palha (1973), A Casa do Diabo (2009) e até mesmo O Bebê de Rosemary (1968). O diretor constrói diversas camadas no filme, com um excelente estudo psicológico e antropológico. A análise mais evidente é a de que Midsommar trata sobre emancipação feminina, a libertação de uma mulher que está em um relacionamento conturbado e passa por um processo de luto pelas mortes dos pais.

Tudo isso não teria o mesmo peso sem a atuação forte de Florence Pugh como Dani. Ela é o coração do filme, demonstrando diversos momentos de confusão mental causada pela dor do luto – com surtos, gritos e choros – até a redenção e liberação da personagem.

A liberdade necessária do relacionamento é criada assim por sua dificuldade em superar a dor pela perda dos familiares. Então, temos um estudo psicológico da personagem em busca de seu lugar, sua recolocação, sua emancipação. Há também a busca por acolhimento de Dani e Christian pela comunidade local. Dani, perdida, se sente acolhida e ruma para sua jornada pessoal. Já Christian, com o objetivo de achar um tema para sua tese, acha um propósito no local e na própria vida.

Foto: Divulgação

O diretor mais uma vez mostra um trabalho excelente com a fotografia do filme (de dar orgulho em Kubrick e Wes Anderson) – cinematografia essa que é essencial para a sua proposta de terror à luz do dia. Toda a introdução do filme traz uma ótima contextualização sobre o que está acontecendo – em relação ao relacionamento de Dani e Christian e o drama familiar – somadas a um ótimo trabalho de direção e trilha sonora pulsante causam uma agonia crescente.

Nem tudo são flores no filme, que peca pela repetição de cenas e extensão prolongada. Alguns momentos da vila e dos habitantes com seus rituais característicos são mostrados mais de uma vez sem necessidade. Isso apenas prolonga o filme, que já apresenta ritmo mais lento e pode desagradar muitas pessoas.

Outro ponto de falha é na comédia, sofrendo o mesmo problema de Nós (2019). Mesmo que funcione em termos de humor, isso tira totalmente o clima de tensão enervante e crescente proposto pelo filme. Mark (Will Poulter) é o responsável por trazer a maior parte desses momentos, principalmente em uma cena envolvendo alucinógenos.

Foto: Divulgação

Se por um lado existem alguns momentos de comédia, por outro lado o filme não pega leve em momentos de choque no público, repleto de cenas de nudez, sexo e gore. Aliás, uma cena específica envolvendo suicídio pode chocar bastante ao mostrar uma violência bem explícita.

Fica evidente a inspiração em filmes perturbadores como A Montanha Sagrada (1973), de Alejandro Jodorowsky e Os Demônios (1971), de Ken Russell – que sabiam bem que criar uma experiência cinematográfica marcante, muitas vezes sem se preocupar em mastigar uma obra para compreendimento do público.

Portanto, Midsommar é um filme em que não consegue passar sensação de indiferença, você irá amar ou odiar. Fato é que o filme é uma experiência única e perturbadora, proposta por um diretor corajoso e, às vezes, pretensioso com seu próprio exímio técnico e metafórico. E que venha o próximo filme de Ari Aster.