ID Entrevista| Selvagens a Procura de Lei e seu “Paraíso Portátil”

Texto por: Isadora Marques

A banda de fortaleza lança seu quarto disco de estúdio "Paraíso Portátil" no final desse ano e contou a Indiespensável tudo sobre o novo lançamento

Na estrada há 10 anos, Selvagens a Procura de Lei estão em processo de pré-lançamento de seu novo álbum "Paraíso Portátil", produzido por Paul Ralphes e está previsto para o dia 1º de novembro. O álbum foi fruto de um sucesso de campanha de financiamento coletivo, que conseguiu arrecadar mais do que os R$30 mil que precisavam. Mostrando que a cena está firme e forte! Atualmente a banda lançou o primeiro single do álbum intitulado "Intuição" e fez história doando o famoso "Mucambo" (escafandro que foi capa do primeiro álbum) para o Hard Rock Café, que coleciona memorabilias de nomes lendários da indústria do entretenimento. Em entrevista a Indiespensável, o vocalista e guitarrista, Rafael Martins nos contou sobre as novas experiências sonoras, processo de produção do novo álbum, inspirações, shows memoráveis, cenário independente e afirmou que as questões interpessoais terão mais valor nesse novo álbum.

Que tipo de musicalidade diferente podemos esperar nesse novo álbum?

A construção do "Paraíso Portátil" se deu ao longo de uns 2 anos pra cá, quando o estilo do álbum já ia se revelando pra gente. Ao contrário dos outros, esse foi mais trabalhado em home studio, dando margem pra experimentos nas sonoridades com baterias eletrônicas, synths, teclados e efeitos. Acho que a sonoridade dele passeia muito por uma estética de um rock mais atual.

Sobre o que fala o "Paraíso Portátil"? Por ser o terceiro disco acreditam ser um trabalho mais maduro?

O Paraíso Portátil fala muito de olhar pra dentro, enxergar quem é você no meio dessa confusão que estamos vivendo e assumir sua personalidade. Pra todos os amigos e parceiros que mostramos, a unanimidade é que soa como um disco "maduro". Talvez pelas letras serem bem pessoais e carregarem uma carga emocional, exista essa conexão com quem escute. Pra mim, o PP é o disco que menos me preocupei em provar algo, tentar emplacar um hit e etc. Minha preocupação era mais em passar a verdade na interpretação e nas mensagens que esse disco carrega no som e nas letras. Estou bem feliz com o resultado, um belo e sincero registro da nossa carreira. 

Foto por Murilo Amancio

Suas letras tem o costume de tratar de questões bastante políticas,poderemos esperar alguma menção ao momento político que estamos vivendo?

Isso é até uma coisa que a gente conversou bastante na hora de definir o repertório do álbum. Chegamos a conclusão de que tínhamos mais musicas tratando de questões profundas interpessoais do que algo como uma nova "Brasileiro" ou "Massarrara", músicas que falam de política dos álbuns anteriores. É fato que o Brasil e o mundo estão passando por um momento político turbulento, confuso e que vai deixar cicatrizes, mas em meio a tudo isso precisamos cuidar de si, olhar pra dentro pra não esquecer a nossa essência. Os tempos agora são de muita informação e desinformação, estamos todos ligados 24hs em tudo que acontece e mesmo assim não conseguimos prever nada. Digamos que tenha 1 música que fala de leve em política, umas frases de efeito sobre uma situação ocorrida em Brasília.

Por que "Intuição" foi escolhida como o single que abre as portas para o novo álbum?

Achamos que ela tem muito o estilo dos Selvagens pra abrir caminho pras outras, que são um pouco mais diferentes de tudo que fizemos ate hoje. "Intuição" é uma balada rock com refrão que tem um grito de liberdade e a sonoridade que resgata um pouco de "Despedida".  Foi uma das últimas a entrarem no disco e teve uma grande contribuição do Paul Ralphes (produtor do álbum), que sugeriu juntar os versos de uma música com o refrão de outra e aí funcionou demais, foi uma boa sacada.  

Esse mês vocês comemoraram 10 anos de banda num show no CCSP, que balanço vocês tem a fazer nessa uma década de estrada?

Ainda temos muita vontade pra fazer muita coisa! Passou rápido, talvez porque começamos muito novos, no primeiro disco eu tinha 20 anos! Hoje estou com 29.Temos uma boa discografia e muitos fãs pelo Brasil, shows no exterior e muitas experiências de vida. Selvagens é parte das nossas vidas, não tem como não acordar todo dia e se ver distante disso, criamos algo que ganhou vida própria e nossa vontade é de continuar fazendo música e tocando o barco da forma que sempre acreditamos. 

Qual foi o show mais importante e marcante que fizeram nesses 10 anos?

Nossa, difícil de dizer. Pessoalmente acho que o Lollapalooza 2018 foi bem foda! Tocamos no palco principal, o mesmo que mais tarde os Red Hot tocaram, e ver que no nosso show tinha gente do Brasil inteiro cantando nossas musicas foi bem massa. 

Selvagens a Procura de Lei durante o show no Lollapalooza de 2018
Foto: Divulgação/Lollapalloza

O DVD "Na Maloca Dragão" é uma síntese de todo o trabalho musical de vocês até hoje, como foi a experiência de gravá-lo especialmente num festival?

Olha, esse show foi uma loucura, acho que ninguém esperava que fosse dar o tanto de gente que deu. Confesso que senti uma atmosfera um pouco fora do nosso controle, porque filmar e gravar num ambiente assim é diferente do que em um teatro por exemplo. São muitas questões da captação de áudio e vídeo, vazamentos, etc. Pra gente, esse show representou meio que o fim de um ciclo, resolvemos depois do DVD entrar de cabeça no disco novo e partir pra um novo conceito em tudo. 

A partir de PRAIEIRO, vocês seguiram uma carreira independente e começaram a lançar seus conteúdos dessa forma. O que rolou de diferente nesse período? Acreditam que atualmente é mais fácil seguir uma carreira nessa vertente?

Uma banda precisa fazer shows. Não adianta apenas lançar suas musicas nas plataformas de streaming. O Praieiro foi o momento em que saímos da Universal Music pra trilhar nosso caminho de forma independente porque acreditamos que era o melhor na época. Foi meio que se reestruturar, buscar um novo time de parceiros e etc. Com o Paraíso Portátil estamos com uma excelente equipe e parceiros fortes no mercado. Vamos lançar bem o álbum, trabalhar bem na distribuição digital e continuar fazendo shows, como toda banda de rock deve fazer. Acreditamos que o momento agora é de tocar bastante e colher os frutos desse disco. 

Foto por Alex de Paiva

Como foi o processo de produção e arrecadação de "Paraíso Portátil"?

Produção do álbum foi incrível. O Paul Ralphes ja tinha trabalhado com a gente em outros projetos e sentimos que ele seria o cara certo. Dito e feito, ele mandou muito bem na produção e depois disso até nos sentimos mais próximos pra quem sabe fazer mais coisas juntos em breve. A produção foi feita em São Paulo e a gravação foi no Rio de Janeiro. 

O que vocês tem achado da evolução dos festivais nacionais como Bananada, Coala e etc? Acham que está rolando uma relação de exaltação da cultura musical brasileira voltada pro MPB ou acham que rola uma diversidade de estilos bacana?

Acho que rola uma diversidade total. Se você ver os line up's dos festivais todos eles me parecem ser voltado pra vários públicos. Acredito que esse é o caminho. Festivais que apostam em uma só pegada podem não refletir com a forma que as pessoas vem ouvindo musica. 

Para finalizar, que artistas estavam ouvindo durante a produção e criação do álbum e como isso os influenciou?

Tame Impala, MGMT, Twenty One Pilots, Outkast e muita coisa brasileira, isso influenciou bastante na sonoridade! Quisemos buscar novos sons (beats, synths, violões) pra roupagem das musicas.