ID Entrevista| Ana Ribeiro criadora do jogo Pixel Ripped 1989

Texto por Isadora Marques

Conversamos com a Ana Ribeiro sobre a indústria de games, visibilidade feminina e sobre como seu trabalho serve de influencia para outras mulheres no mercado

Maranhense, 36 anos, se considera fã número 1 de Mega Man 2 e Metroid, é criadora do jogo em realidade virtual Pixel Ripped 1989, que foi lançado em 2018 e está disponível na Steam e PSN. O jogo que se trata da história de Ana Ribeiro no mundo dos videogames nos anos 80, mas no jogo você assume o papel de Nicola que precisa driblar a atenção dos professores para jogar seu jogo preferido Pixel Ripped.

Ana Ribeiro é um dos ícones da indústria de games independentes no Brasil, porém, até se encontrar na profissão que queria trabalhou em um Tribunal e vendendo empadas. Dentro de um mercado onde as mulheres ainda ainda são escassas, Ana diz não ter sofrido nenhum desrespeito na área, mas que nota que as pessoas ficam bem surpresas ao vê-la nessa papel. Hoje, Ana participa de inúmeras palestras, feiras como a BGS e eventos como o Women Game Jam. Além disso está trabalhando no desenvolvimento do sucessor de seu primeiro jogo, o Pixel Ripped 1995, junto com a desenvolvedora brasileira Arvore, dessa vez o jogador assumirá o papel de David e o jogo se passará durante a evolução dos jogos da era de 16 bits para a de 32 bits e dos ambientes 2D para 3D.

Em conversa com a Indiespensavel, a criadora de Pixel Ripped nos contou sobre início da carreira, inspirações, visibilidade feminina e muito mais!

Quando começou a se interessar pela produção de games?

Sempre gostei de jogar, desde criancinha jogava videogames junto com meus irmãos. Estava tão envolvida na cultura gamer que acabei até tendo meu próprio clã de Counter Strike em São Luís, minha cidade no Maranhão. Decidi estudar psicologia, passei o concurso público e comecei a trabalhar no Tribunal de Justiça do Maranhão, fazendo alvarás, cartórios de família, pensões alimentícias, divórcios, etc. Era um trabalho onde eu tinha minha aposentadoria garantida. Mas eu realmente queria mudar de vida, queria empreender, e me dediquei a empreender no negócio das venda de empadas. Aí nessa aventura de criar e manter meu próprio negócio repensei minha vida e cheguei na conclusão de que eu tinha que trabalhar com aquilo que eu tinha desfrutado a vida toda, videogame.

Quando decidiu que essa era a carreira que queria achou facilidade em buscar espaço e desenvolvê-la aqui no Brasil?

Eu queria mudar de vida, sair da minha rotina, aprender uma nova cultura e viajar para um país que tivesse uma indústria sólida, onde eu pudesse me formar junto aos futuros profissionais daquele lugar, tendo as maiores garantias possíveis de que eu aprenderia a criar jogos de qualidade internacional. Então me formei na Inglaterra e la comecei a minha carreira como. Aqui no Brasil tenho pouca experiência, voltei para o país em 2017, mas por uma boa razão, consegui investimento de uma empresa brasileira, a Arvore, que deu o apoio final que o jogo precisava para ser lançado. Daí então posso dizer que no Brasil consegui encontrar espaço para desenvolver.

Captura de tela do jogo desenvolvido por Ana, Pixel Ripped 1989

Como surgiu a ideia para a criação do Pixel Ripped? Imaginava a repercussão que ia gerar?

Eu tive um sonho onde eu estava numa sala jogando vídeo game e o jogo que eu jogava ia mudando de gráficos para épocas posteriores, e também mudava a aparência da sala onde eu estava. Quando acordei refleti sobre aquilo, tive que olhar além da minha própria vida como jogadora desde o final dos anos 80, sendo uma garota com três irmãos e apenas um console era difícil. O marketing de videogame era muito focado nos meninos e eu era a única garota brigando entre eles por ter algum tempo de jogo quando eles não estavam usando. Depois disso, compramos um Nintendo 64 e jogamos muito juntos, como sempre desfrutamos tanto desses momentos preciosos, então sempre guardei uma lembrança muito vívida de como os jogos eram naquela época. Além disso, uma forte inspiração para o Pixel Ripped 1989 foi o tempo limitado e a multitarefa. Durante a minha infância, era difícil ter tempo para jogar e só jogar, sempre tinha que fazer outra coisa ou tinha um tempo limitado antes da chegada dos meus irmãos, escola, ou meus pais me chamavam para ajudar em algumas tarefas!

Qual é a importância em ter sido a primeira brasileira criadora de um jogo em RV? Que impacto isso traz para o mercado de games brasileiro e para visibilidade feminina?

Não tenho certeza de que sou a primeira, más de qualquer forma busco dar o melhor de mim e me esforço para criar jogos que inspiram jogadores e por que não desenvolvedoras também. Acredito que dando referência para essas meninas da próxima geração, vamos conseguir mudar a participação da mulher na indústria de games no futuro, para uma presença mais significativa.

Como você enxerga o mercado de games em relação a visibilidade feminina dentro do desenvolvimento de games?

Eu mudei o personagem do meu jogo de menino para uma menina, isso me fez sentir muito mais identificada com as minhas próprias experiências de vida como jogadora. Acho que assim tiver mais mulheres e mais diversidade de gênero entre os desenvolvedores terá uma representatividade e visibilidade feminina maior, aliás que será mais diversa e ajudará a construir um cenário melhor para a indústria como um todo.

Qual é a maior barreira que você enfrenta como desenvolvedora?

Por enquanto eu não percebi discriminação pelo fato de ser mulher no meu entorno profissional, mas sei que muitas outras mulheres sofreram e acho que isso tem que mudar com o trabalho de todos os que fazemos parte da indústria.

Imagem prévia da continuação de Pixel Ripped que foi anunciado nesse ano

Desde que ingressou nessa área até os dias atuais o que consegue observar de mudanças (boas e ruins)? E o que acha que ainda está faltando no mercado?

Nos últimos anos a produção de jogos indies no Brasil está crescendo muito em quantidade e qualidade, acho que é para se sentir bem orgulhosa ser parte dessa indústria. 

O Pixel Ripped criou um marco no mercado de games e isso querendo ou não te transforma num ícone e desperta grande inspiração e admiração em centenas de garotas que também estão ingressando nessa área, como você se sente sobre isso? Na época que começou você tinha alguma inspiração feminina no mundo dos games?

Na verdade eu não tive referência de ninguém próximo, nem homens nem mulheres que criavam jogos. Eu cresci imaginando como eram criados os jogos de videogame, como que algo mágico e difícil de imaginar como ou quem fazia quando você não tem referência. A única referência que tive foi o amor aos videogames, a paixão que cresci tendo com esses jogos clássicos que aprendi a admirar, como Megaman 2, Galaga, Pac-man, Metroid e por ai vai. Demorei muito tempo para me encontrar como desenvolvedora de jogos, apenas aos 25 anos comecei a correr atrás e aprender tudo do zero. Eu fico muito feliz que a decisão de ir trabalhar com realidade virtual deu certo, eu fui trabalhar com algo muito novo, que poderia não ter funcionado, mas realmente aquele sonho que eu tive tinha um sentido e consegui que ele se torne uma realidade, ser desenvolvedora de jogos profissional.

Foto tirada durante a semana de testes de Pixel Ripped 1995 na Oculus Connect 6

Que conselho você daria para garotas que pensam ou estão estudando para se tornar desenvolvedoras como você?

Às vezes podemos nos sentir perdidos, fazendo um trabalho no qual a gente não encaixa, porque a sociedade nos obrigou a não arriscar, ou a procurar sempre a estabilidade no nosso emprego. Eu quero mandar uma mensagem de apoio para que elas procurem aquela profissão pela que realmente sentem paixão e não tenham medo de lutar para empreender e lutar por isso. No final as peças vão se encaixando e, se você tem força de vontade, luta e não desiste, vai acabar conseguindo.