Resenha | Coringa: a construção do caos na sociedade opressora

Por Bruno Botelho

Coringa é um dos personagens mais icônicos da cultura popular, conhecido por ser o principal e mais marcante inimigo do Batman. Nos cinemas, já foi interpretado pelos atores Cesar Romero, Jack Nicholson, Jared Leto e, principalmente, Heath Ledger, com uma atuação memorável na pele do vilão – que lhe rendeu prêmios póstumos (o ator faleceu em 2008) como o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Eis que a Warner/DC resolve fazer um filme solo do Coringa, que seria inicialmente produzido pelo diretor Martin Scorsese, mostrando sua origem sem ser um blockbuster hollywoodiano baseado em HQ, mas sim um drama forte livremente baseado no personagem.

Antes de tudo, é importante destacar que Coringa não é um filme convencional, é pesado e de difícil digestão, também apresenta diversos momentos de violência explícita. A obra traz uma forte abordagem psicológica, que lida com temas difíceis e complexos como doença mental, abuso físico e psicológico, bullying, dilemas morais e violência física.

Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck, um homem que luta para encontrar seu caminho na sociedade quebrada de Gotham City. Trabalha de palhaço de aluguel durante o dia e aspira ser um comediante de stand up, além de cuidar de sua mãe doente Penny (Frances Conroy). Ele sofre de uma condição psicológica que o faz rir descontroladamente quando está nervoso ou estressado. Um dia, Arthur reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata, o que provoca uma reação em cadeia de eventos crescentes contra a elite de Gotham, representada por Thomas Wayne (Brett Cullen) .

Imagem divulgada pela Warner Bros. Pictures mostra Joaquin Phoenix numa cena do filme "Coringa" (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP)

A cidade fictícia da DC Comics nos quadrinhos é apresentado no filme como opressiva, que repele as pessoas e as deixam esmagadas pelo sistema. Todd Phillips é muito inspirado pelo diretor Martin Scorsese, e aqui fica evidente pela abordagem e estética semelhantes aos filmes da Nova Hollywood, principalmente a Nova York de Taxi Driver. O desajustado Fleck, aliás, remete muito a Travis Bickle, de Taxi Driver e Rupert Pumpkim, de O Rei da Comédia, ambos filmes de Scorsese e interpretados por Robert De Niro.

A direção de Todd Phillips tem como mérito focar nas reações e gestos do Arthur Fleck, normalmente com closes no rosto (expressões faciais) ou no corpo. O problema é que, em alguns momentos há repetições de cenas de Fleck, o que se torna repetitivo e prolonga o filme, que já é bem denso, podendo atrapalhar um pouco a parte inicial do filme.

O filme é do Joaquin Phoenix! O ator se entrega totalmente na performance física do personagem, tanto em relação aos mais de 23 kg que perdeu quanto seus gestos, movimentos e expressões que dá a atuação. Psicologicamente, o ator mergulha totalmente nos traços psicológicos de Arthur Fleck, dando uma profundidade e desenvolvimento de personagem incrível.

Imagem divulgada pela Warner Bros. Pictures mostra Joaquin Phoenix numa cena do filme "Coringa" (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP)

Duas frases ditas por Arthur mostram bem a profundidade psicológica concebida: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse” e “Você faz as mesmas perguntas todos os dias. ‘Como vai seu trabalho? Está tendo pensamentos negativos?’ Só o que eu tenho são pensamentos negativos”.

O Coringa de Heath Ledger era marcante pelo mistério em relação a sua origem, o que fez ele se tornar esse agente do caos. Já o Coringa de Joaquin Phoenix é notável pelo oposto, ao mostrar o que levou Arthur Fleck a se tornar o icônico vilão, todo o arco do personagem impressiona e impacta.

Os personagens secundários do filme, como a Penny (Frances Conroy) – mãe de Arthur – e seu interesse amoroso Sophie Dumond (Zazie Beetz), são importante para seu desenvolvimento e “libertação” como Coringa. Murray Franklin (Robert De Niro) é importante personagem como ponto de transição Fleck/Coringa, mas também está no filme como uma crítica a ação da mídia e sua espetacularização.

Imagem divulgada pela Warner Bros. Pictures mostra Joaquin Phoenix numa cena do filme "Coringa" (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP)

O terceiro ato é o grande destaque do filme, principalmente pelo roteiro e atuação de Phoenix. Nele, nós temos Arthur já transformado em Coringa, muito mais confiante e, até mesmo, anárquico. A participação dele no programa de Murray Franklin (Robert De Niro) é um dos momentos mais brilhantes do filme, em que o roteiro discute a sociedade em geral, a mídia, a opressão, mas principalmente, a falta de empatia com o próximo.

A obra brinca com a realidade em diversos momentos, se aproveitando da instabilidade emocional e psicológica de seu personagem. Isso é muito bem trabalhado ao longo do filme, subvertendo expectativas e informações ou relações apresentadas mas, principalmente, no final do filme, que se encerra aberto a diversas interpretações.

O filme foi ovacionado no Festival de Veneza e levou o Leão de Ouro, principal prêmio de um dos festivais mais importantes de cinema. Porém, depois da premiação começaram a surgir diversas críticas negativas ao filme em relação ao seu conteúdo. Afirmavam que ele glamouriza a violência, é tóxico, perigoso e até mesmo irresponsável. Além de que ele incentiva o comportamento incel, que são grupos radicais que disseminam discurso de ódio em fóruns de discussões na internet, falando sobre sua solidão, sua insegurança e frustração por não conseguirem se relacionar.

Imagem divulgada pela Warner Bros. Pictures mostra Joaquin Phoenix numa cena do filme "Coringa" (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP)

Na verdade, o filme incita o debate justamente sobre esses temas, constrói um personagem nesse contexto opressivo, abrindo a reflexão sobre a sociedade em geral, sem nunca glorificar suas atitudes. Isso tudo torna o filme perigoso pelo momento social que vivemos, com constantes ondas de ataques extremistas e disseminação do ódio, mas ao mesmo tempo abre uma discussão importante para refletir a nossa sociedade como um todo e as ações de cada indivíduo.

Ame ou odeie, Coringa é um filme corajoso e ousado, que apresenta uma construção incrível de um dos personagens mais marcantes da cultura popular e consegue fazer críticas efusivas ao sistema e opressão social. Dentro disso, o niilismo é fuga ao mundo doente. Perigoso e controverso? Sim, mas ainda assim essencial.