Resenha | El Camino: Uma história desnecessária de Breaking Bad

Por Paulo Ferreira

Não há como negar que Vince Gilligan tem uma habilidade nata para criar personagens excepcionais. Do professor de química fabricante de meta ao distribuidor de drogas dono de uma rede de fast food, dão vida às histórias de Breaking Bad de uma forma raramente vista na televisão. Foram cinco das melhores temporadas de séries já produzidas, e é natural que tenha deixado um legado de fãs que anseiam por qualquer tipo de janela que os levem de volta a esse universo de personagens empáticos. Uma delas é Better Call Saul, que funciona como um (excelente) prelúdio a série e conta a história de origem do querido advogado Saul Goodman. Porém, quando se trata de El Camino, as coisas são um pouco diferentes.

O filme da Netflix com roteiro e direção de Gilligan tem uma difícil missão: criar empatia por um protagonista da mesma forma que as cinco temporadas da série fizeram (spoiler: não deu muito certo). Não me leve a mal, Jesse Pinkman é o tipo de personagem que você só quer abraçar e proteger de todos os problemas que ele passou. Ele foi coagido a se tornar o parceiro de Walter White em um império de drogas que ele não pode escapar, perdeu dois interesses amorosos por conta disso e acabou dentro de uma gaiola por meses como um escravo. Porém, El Camino falha em abordar a carga dramática da vida de Jesse como visto anteriormente em Breaking Bad.

Mas a maior pergunta que restou depois de terminar de ver as duas horas do longa televisivo foi: “por quê?” El Camino é uma espécie de epílogo atrasado para a série. Sua história começa no mesmo segundo que a série acabou, com Pinkman escapando de seu cativeiro com a ajuda de um White arrependido. Mas a primeira cena do filme é um flashback, que mostra uma conversa entre ele e Mike, com a conclusão dos dois que o Alasca seria um ótimo lugar para recomeçar.

O filme então se torna uma sucessão de encontros entre Pinkman e personagens que você já conhece da série. Skinny Pete e Badger são os primeiros, que abrigam o velho amigo e trazem um pouco do bom humor de outrora, enquanto Heisenberg não estava no negócio do império. É uma quebra bem-vinda no tom sério do filme. Mas, depois dessa sequência, as cenas do presente parecem cada vez menos importantes em meio a tantos flashbacks, que trazem diversos outros personagens de volta à vida, sendo o mais importante deles Todd Alquist, um dos sequestradores de Pinkman.

As cenas no passado tentam validar o presente de Pinkman. No entanto, com exceção de duas ou três cenas com reviravoltas marcantes, o filme desce por uma ladeira cada vez mais íngreme até chegar à sua conclusão, e deixa o protagonista exatamente no mesmo ponto que ele estava no final da quinta temporada de Breaking Bad.

Depois de tudo isso, você deve achar que eu odiei El Camino. Na verdade, não. Com exceção do roteiro, que parece tentar trazer todos os personagens mortos da série para uma última cena, o filme é extremamente competente em todo o resto. A fotografia é maravilhosa em diversos aspectos, incluindo uma palheta de cores que passam os sentimentos de Pinkman em cada momento e atuações excelentes de Aaron Paul e Jesse Plemons – Todd continua tão repulsivo ou pior do que eu lembrava. Não é um filme ruim. Mas faltou um pouco da genialidade de Gilligan na criação do roteiro, o que faz El Camino parecer um daqueles episódios de anime que acontecem entre duas temporadas e tentam esclarecer acontecimentos da temporada anterior – algo desnecessário para Breaking Bad.

Em suma, El Camino é exatamente o que você esperaria de um episódio final de duas horas. Não é ruim, mas depois de algo tão incrível como Breaking Bad, fica difícil não esperar mais de um filme baseado na série. Se você realmente quer ver algo tão brilhante, talvez seja melhor recomeçar a assistir Breaking Bad.