Resenha | Parasite: o abismo social e a violência das relações entre classes

Por Bruno Botelho

Não é de hoje que o cinema sul-coreano vem se destacando no cinema. Desde o começo do século XXI diversas produções são sucesso de crítica e até mesmo figuram em premiações importantes – como os filmes Oldboy (2003), Eu vi o diabo (2010), Invasão Zumbi (2016), A Criada (2016) e Em Chamas (2018). Em 2019, é a vez de Parasite tomar os holofotes para si.

Dirigido por Bong Joon-ho – conhecido por O Hospedeiro (2006), Expresso do Amanhã (2013) e Okja (2017) –, o filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, vencendo a forte concorrência de filmes como Dor e glória, do Almodóvar; Era uma vez em Hollywood, do Tarantino e até mesmo o brasileiro Bacurau (que levou o Prêmio do Júri).

Parasite conta a história de uma família de desempregados, a de Ki-taek (Song Kang-ho), que vivem em um escuro e precário apartamento no subsolo. A vida deles muda quando o filho Ki-Woo consegue um emprego como professor particular de inglês de uma jovem de família rica, os Park. Aos poucos, toda a família (dois filhos, pai e mãe) começam a trabalhar para a família Park, como "parasitas", por meio de golpes. Aos poucos, os problemas para os golpistas começam a aparecer e se agravar incontrolavelmente.

Bong Joon-ho, já conhecido por sátiras da sociedade sul-coreana como Memórias de um Assassino (2003) e O Hospedeiro, deixa claro desde o começo que vai tratar sobre o abismo social entre as classes ricas e pobres. O mais interessante é como ele resolve retratar isso em seu filme. Muitas vezes, filmes que trabalham com temáticas sociais e políticas costumam não ser discretos em colocar o dedo na ferida e muitas vezes podem soar como “panfletários”. Aqui em Parasite isso não acontece, já que tudo é mostrado de forma sutil e genial.

Parasite transita entre gêneros de maneira muito fluida e impressionante. Começa como uma comédia de costumes, alterna para suspense conforme a tensão do filme cresce, até culminar no terror, para retratar toda violência das relações sociais que se agravam e aumentam cada vez mais dentro desse mundo. Então, o que o filme faz de melhor é trabalhar o cinema de gênero, combinando suspense e terror instigantes com humor, para expor sua metáfora inteligente sobre a sociedade. Nisso, o diretor é tão competente quando Jordan Peele em Corra! (2017) e, principalmente, em Nós (também desse ano).

O clima de tensão do filme é crescente a maneira que as revelações e reviravoltas do filme aparecem, como se a diferença (abismo) de classes ficasse cada vez mais exposta e, assim, ocorre um choque de realidade culminando em terror e violência.

Bong ao lado do diretor de fotografia Hong Kyung-pyo cria uma metáfora visual inteligente – como já haviam trabalhado muito bem em Expresso do Amanhã com a divisão dos vagões de trem representando a divisão de classes – ao construir dois mundos distintos, e contrastando essas mudanças drásticas entre o interior das casas, que não significam apenas mudanças nas condições de vida, mas no estado interior de cada um dos personagens. O caos no mundo deles também representa o caos interno, assim como o deslumbramento com o luxo da família rica, e poder adentrar esse universo, representa a felicidade e calmaria para eles – pelo menos enquanto as máscaras sociais se manterem.

Os parasitas são organismos que vivem em associação com outros dos quais retiram os meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando o organismo hospedeiro. O organismo nada mais é que a sociedade, então a família pobre se infiltra como um parasita dentro da família rica para conseguir uma forma de sobreviver.

Durante todo o tempo, o envolvimento e o apego aos personagens centrais continuam se aprofundando conforme o filme cresce em suspense instigante, assim, o destino final de cada um atinge o espectador com a força de uma tragédia. Seria essa tragédia a da nossa própria sociedade e relações sociais como um todo? Sem dúvidas que sim.

Portanto, Parasite é um comentário feroz sobre a desigualdade econômica e a violência gerada pelo capitalismo, mas aborda esses temas com inteligência e transitando entre gêneros cinematográficos, sem nunca parecer um mero “filme-denuncia”. Por isso, é um dos melhores e mais espertos filmes do ano. Viva o cinema sul-coreano!