Resenha| Racionais 3 Décadas: Sobrevivendo no inferno um dia após o outro dia

Por Bruno Botelho

O Racionais completou 30 anos e comemorou em um show incrível cheio de convidados e nostalgia. O Indiespensavel esteve por lá e te conta quais foram as impressões

Racionais é um dos grupos mais influentes e importantes da história da música nacional. Fundado em 1988, o grupo de rap formado pelos mc's Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue e o DJ KL Jay, promoveu uma revolução na música brasileira, principalmente com os álbuns Sobrevivendo no Inferno (1998) e Nada como um Dia após o Outro Dia (2002), que abordam questões sociais e políticas, principalmente promovendo um forte – e fundamental – debate racial e sobre a condição de vida dos mais pobres. Assim, o grupo se tornou porta-voz da periferia.

30 anos depois, Racionais continua mais atual do que nunca, devido – principalmente – à conjuntura política e social que o País se encontra. A luta deles, na real, nunca acabou e, por isso, a relevância deles permanece intacta. Em 2019, o grupo comemora 3 décadas e nada melhor do que lançar uma turnê comemorativa pelo Brasil.  

O que mais impressiona nos Racionais é que eles não se acomodam. Com 30 anos de estrada, eles poderiam fazer shows sem vontade nenhuma, apenas para lucrar com mais uma turnê comemorativa. Isso não é o caso, já que eles trazem uma produção impressionante e marcante, graças à energia de como se estivessem no começo de carreira, mas ao mesmo tempo também pela bagagem e relevância alcançada.

Muitos artistas de rap – principalmente internacionais (inclusive os maiores nomes) – costumam usar em seus shows playback, o que deixa a experiência totalmente artificial. Racionais caminha pelo oposto, com performance totalmente ao vivo, suportados por uma banda completa. Isso evidencia a qualidade deles: mesmo após muitos anos, Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, somados ao DJ KL Jay, estão em plena forma e parecem uns meninos no palco.

O show acontece fazendo um retrospecto da trajetória do grupo desde o início da carreira, com as músicas sendo executadas em ordem cronológica dos lançamentos dos discos. A história começa com o lançamento da mixtape Consciência Black, de 1989, com destaque para a música Pânico na Zona Sul, que abre o show, e também aparece no EP Holocausto Urbano, de 1990. Aqui, já se percebe que a banda trouxe para a turnê arranjos diferenciados dos originais, porém extremamente inventivos e bem executados – isso deve-se muito à qualidade da banda de apoio ao vivo. O show nada mais é do que um grande baile black, com alguns arranjos de soul e R&B, que remetem também ao trabalho solo de Mano Brown, Boogie Naipe, de 2016.

Depois, chega a vez do primeiro disco completo do Racionais, Raio-x do Brasil (1993), que foi responsável por colocar o rap entre os estilos mais populares do País, principalmente pelos sucessos Fim de Semana no Parque e Homem na Estrada. Nessa primeira parte do show, vemos uma banda mais crua liricamente, atrelada à conscientização e militância deles na época, se preparando para a grandeza que alcançariam. 

O show entra então na parte em que até quem não conhecia o grupo, passou a conhecer, com o histórico Sobrevivendo no Inferno (1997), um dos discos nacionais mais marcantes e importantes. Suas letras discutem temas de desigualdades social, miséria e racismo, que estão vivos até hoje. Jorge da Capadócia, Tô Ouvindo Alguém Me Chamar, Mágico de Oz, Capítulo 4, Versículo 3, Rapaz Comum e Genesis são executadas no show, tornando-o ainda mais politizado, além do carro chefe do albúm, Diário de um Detento (baseada no diário de Josemir Prado, ex-detento do Carandiru) e Fórmula Mágica da Paz, que é a penúltima tocada.  

Nessa parte do show, inclusive, Seu Jorge aparece no telão, alertando sobre os homicídios de negros no País, onde: quase 72% das pessoas assassinadas no Brasil são negras ou pardas e a cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Isso emenda com sua aparição no palco (que não canta) e a apresentação da música Capítulo 4, Versículo 3.

Em 2002, outro álbum foi fundamental para a banda, inserindo-os nos anos 2000 e trazendo clássicos nacionais tão relevantes quanto aos da obra-prima que o antecedeu. Aclamado, Nada Como Um Dia Após o Outro Dia é um dos discos que mais proporcionou identificação das pessoas com as mensagens do grupo e, por isso, é cantado pelo público com devoção. Nego Drama, Vida Loka pt 2 e Jesus Chorou causam reflexão e emocionam, fazem parte da trajetória da juventude negra e da periferia.

Merecido reconhecimento e destaque deve ser dado a Lino Krizz – cantor e compositor que era dos Metralhas e Motirô. Ele faz backing vocal, inclusive com performance vocal impressionante, e rege a banda que acompanha os Racionais.

Depois de 2002, eles só voltaram a lançar um disco de estúdio em 2012, o Cores e Valores, que veio com outra pegada, mais curto e direto que os anteriores. Ele basicamente traz o retrospecto de tudo o que a banda passou, mas sem se prender ao passado. No show eles até conversam espontaneamente sobre a história de cada um dos integrantes. O disco têm os temas clássicos – racismo, pobreza e crime, por exemplo – mas também abre espaço para a glorificação do que eles alcançaram e o que se tornaram durante todos esses anos. Então não teria maneira melhor para representar a fase atual deles, do que com esse disco e músicas como O Mau e o Bem e Somos o que Somos.

Na reta final, Mil Faces de Um Homem Leal (Marighella) é um dos momentos mais marcantes. A música fala do líder revolucionário controverso, Carlos Mariguella. No início, Mano Brown cita revolucionários históricos de outros países, como Che Guevara, enquanto ele, Edi Rock, Ice Blue, Seu Jorge e o rapper Dexter com os braços levantados e seus pulsos cerrados.

Brown até fala algumas vezes que “a causa é muito maior do que nós”. Racionais não esconde (nunca escondeu) sua mensagem e, por isso, são tão verdadeiros e incisivos, colocando sem nenhum medo o dedo na ferida. Com um show e uma turnê impecável em todos os sentidos, eles provaram, mais uma vez, que são atemporais.