O pequeno e elétrico coração de galinha de Ana Frango Elétrico

Por Camila Cetrone

A jovem cantora, compositora e instrumentista carioca lança um dos álbuns mais entusiásticos da música brasileira contemporânea em 2019.

Um sobrenome difícil demais foi um dos fio condutores que resultaram na identidade de Ana Frango Elétrico. Foi assim a maneira como optou substituir o Fainguetern, que certamente poucos saberiam falar ou até mesmo buscar no YouTube. Mais do que um nome curioso, Ana é uma das personas mais autênticas a conquistar um espaço na cena independente e alternativa da música brasileira.

Só a escolha do nome é um indício da trajetória irreverente e destemida que a cantora escolheu trilhar. No dia 18 de outubro de 2019, ela subiu ao palco do Sesc Avenida Paulista para lançar seu segundo álbum, “Little Electric Chicken Heart”, e apresentou um show efervescente. Foram caras, bocas, tremeliques no corpo e até mesmo cacarejos para interpretar o novo trabalho. Não é para pouco, já que entre as 9 faixas mesclam-se canções enérgicas, com direito a distorção de guitarras e metais a plenos pulmões, e uma boa dose de calmaria que beira entre uma bossinha e um MPB.

Desde o lançamento de seu álbum de estreia, “Mormaço Queima” (2018), a artista se destacou por composições afiadas e criativas, fazendo lembrar muito as brincadeiras entre palavras e inventividade de sonoridades de Itamar Assumpção. Além da pouca idade: atualmente aos 21 anos, Frango Elétrico possui uma desenvoltura musical extremamente amadurecida. Da capa ao seu conteúdo, “Mormaço” trazia uma proposta caseira, bebendo da fonte do DIY e botando a cara a tapa. A produção é audaciosa, pegando um pouco do samba, um pouco do rock e ilustrando esse cenário com letras surrealistas. Como por exemplo na faixa “Roxo”:

“Ainda tentando chutar a bola / Com o pneu da bicicleta / Se de noite cada vez que liga a luz é um novo dia pro seu peixe / Amanhã por acaso pode ver o passeador de cachorros que parece o Lenny Kravitz”

A irreverência não só pega bem como é contagiante. Até que essa melodia dançante explode em um caótico punk, cheio de guitarras distorcidas, bateria frenética é um coro de vozes que criam uma verve diferente. A atmosfera de quebra de gêneros funciona bem ao longo de álbum, tornando quase impossível dar apenas um rótulo ao trabalho.

Em “Little Electric Chicken Heart”, o caos não some mas torna-se mais organizado e fluido, sem perder as características que diferenciaram Frango Elétrico dos demais artistas de sua geração. As guitarras continuam em destaque, mas mais suingadas e harmoniosas. Os sopros também estão muito mais presentes.

Saudade” inicia o álbum com um piano solitário e nostálgico, que vai se mesclando ao baixo, às guitarras, às vozes e aos metais. Até que sua calmaria irrompe num grito mais intenso e forte, justamente como num choro de saudade. Segue com “Promessas e Previsões”, uma balada de composição afiada, e “Se No Cinema”. Essa última, ao lado de “Chocolate”, "Devia Ter Ficado Menos" e “Caspa”, forma um arco que faz lembrar a era de Mormaço, já que apresentam as letras irreverentes, quebras de gênero e experimentalismos tanto pelas vozes como pelos instrumentos.

“A gente vai ter que dialogar muito para não reeleger um merda desse”, diz Ana naquela noite de 18 de outubro ao público, que ovaciona antes que ela comece a esbravejar de novo: “merda, merda, merda”. É assim que começa a tocar os arranjos de “Torturadores”, uma das faixas mais atuais, emblemáticas e políticas de “Little Electric Chicken Heart”. A faixa faz alusão às torturas que foram realizadas durante o período de ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, e busca por alguma maneira de redenção:

“Pesquisando o nome e o endereço de torturadores / Só pra contar pros netos e porteiros que têm todo o direito de saber."

Seja no palco ou apenas aos ouvidos, a maturidade e a confiança de Ana impressionam, dando a ela, como artista, um impacto tremendo que ressoa em sua obra. Ressoa também como uma imersão na mente da juventude contemporânea, cheia de incertezas, questionamentos sim forte desejo por respostas. Quem sabe, com ela, não surja o início de uma retomada tropicalista.

"Little Electric Chicken Heart" está disponível no YouTube e nas plataformas de streaming: