Cigarettes After Sex está de volta com o álbum “Cry”

Por Camila Cetrone

Banda norte-americana lança segundo álbum da carreira e segue com faixas que cantam sobre o romance e intimidade. Os sussurros de Greg Gonzalez seguem hipnóticos e condizentes à atmosfera densa, misteriosa e sedutora de trabalhos anteriores.

Nem só de banjos e música country vive El Paso, Texas, nos Estados Unidos. O lado underground da cidade também tem seu jeito de cantar sobre o amor e corações partidos. É nesse cenário em que surge o Cigarettes After Sex, banda que transita entre o shoegaze e o dream pop liderada por Greg Gonzalez.

Você provavelmente tenha lido esse nome em um dos links sugeridos do YouTube, rede social onde estouraram com o single "Nothing’s Gonna Hurt You Baby", que integra a tracklist do primeiro trabalho, “EP I” (2012). Lá, a faixa já soma mais de 97 milhões de visualizações - sem clipe, apenas a capa do álbum estática.

Depois disso, cravaram um bom espaço para a comunidade indie na internet. Consequentemente, na mídia especializada. Cinco anos depois, conseguiram lançar o primeiro álbum intitulado e conseguiram espalhar as canções por diversos seriados norte-americanos. Em outubro deste ano, eles repetem a dose com “Cry”, segundo álbum que continua a ressoar o clima nostálgico e denso tão marcante de sua discografia. 

Antes do lançamento do trabalho completo, o grupo revelou com exclusividade a faixa “Heavenly” à BBC Radio 1, da Inglaterra. Em entrevista dada ao telefone diretamente da Argentina — a banda, na mesma semana, havia se apresentado no Cine Joia, em São Paulo, sem menções a qualquer novo trabalho durante o show —, Greg conta que foi inspirado pela “beleza esmagadora que senti assistindo a um pôr do sol interminável em uma praia isolada na Letônia numa noite de verão”. 

Desde o primeiro trabalho, sempre foi possível sentir um profundo mergulho na pessoalidade, intimidade e na alma do vocalista. A sinergia com a banda é bem sucedida ao tornar suas experiências, pensamentos e sentimentos em algo, de certa forma, palpável. As nove baladas que decorrem o álbum continuam a imergir o ouvinte em uma profunda nostalgia, melancólica e apaixonante. Além de composições românticas, como “You’re the Only Good Thing In My Life”, “Touch”, “Falling in Love” e “Pure”, Greg versa sobre o coração partido, o que soa como um certo diferencial no clima sempre tão apaixonado. 

Em “Don’t Let Me Go”, é apresentada uma história de amor de juventude que não deu certo. “Kiss It Off Me” é um pedido para que o coração de Greg seja retirado dele no beijo (uma boa para mandar para a ou o crush). Mas a mais avassaladora, nesse sentido, é a faixa título, que ilustra quando uma das partes parece mais apaixonada do que a outra.

“It’s making you cry every time you give your love to me this way / Saying you’d wait for me to stay, I know it hurts you / But I need to tell you something / My heart just can’t be faithful for long / I swear I’ll only make you cry”

A influência de El Paso é nítida na sonoridade do grupo, que ressignifica uma pegada de western misteriosa e a torna sublime. “Pure”, que fecha o álbum, traz um compasso que lembra muito “Falling”, canção de Julee Cruise que foi emprestada à abertura do seriado noventista Twin Peaks, de David Lynch

Existem chateações, no entanto. Não foram poucas a reclamações de que a banda soa repetitiva, trazendo mais do mesmo com acordes similares e os mesmos sussurros sedutores de Greg. No entanto, é realmente necessário que um artista precise se reinventar toda vez que lançar um álbum novo? Um grande leque de artistas opta por permanecer em sua “zona de conforto”, o que, na realidade, pode ser um indício de que o artista encontrou uma identidade para chamar de sua, que justamente a destaca em meio a tantos outros. 

Grande exemplo disso é Lana Del Rey, uma das artistas mais influentes e reconhecidas da atualidade. Apesar de buscar por novas sonoridades, a atmosfera é a mesma. Sua singularidade, aliás, é o que continua a atrair e cativar os fãs. Tome como exemplo sua participação em “Don’t Call Me Angel”, em que colaborou com Ariana Grande e Miley Cyrus, duas artistas que caminham por trajetórias muito opostas a sua. Lana não tentou se enquadrar a elas. E deu certo.

O Cigarettes After Sex de Greg Gonzalez consegue, mais uma vez, criar um trabalho sólido, intertextual com sua própria obra e capaz de continuar dialogando com o público que conquistou para si. Sua linguagem autêntica segue a fazer corações tremerem, lágrimas caírem e peles arrepiarem, seja você um ouvinte solitário ou acompanhado.

“Cry” está disponível no YouTube e nas plataformas de streaming: