Resenha | Doutor Sono (2019): “conciliação” entre Kubrick e King em sequência de O Iluminado

Por Bruno Botelho

Fazer uma sequência para uma obra clássica é uma tarefa ousada, difícil e ingrata. Em 2013, Stephen King resolveu assumir o risco e publicou seu livro Doutor Sono, sequência do clássico O Iluminado (1977). Agora, em 2019, o diretor Mike Flanagan traz a adaptação dessa continuação e com um trabalho ainda mais complexo: conciliar o livro de King e sua sequência com a adaptação feita em 1980 por Stanley Kubrick.

A história traz Dan Torrance ainda marcado pelo trauma que sofreu quando criança no Overlook – acontecimentos de O Iluminado. Assim como seu pai, Jack Torrance, se tornou alcoólatra e busca por paz e redenção Isso tudo é abalado quando um misterioso grupo, auto-intitulado o Verdadeiro Nó – que se alimenta dos poderes de pessoas “iluminadas” –, encontra Abra, uma adolescente com seu próprio dom extra-sensorial poderoso, conhecido como "brilho" e reconhecem nela a oportunidade para a imortalidade. Dan, então, entra nessa batalha de vida ou morte para ajudar a garota e, ao mesmo tempo, lutar contra seu passado.

Verdadeiro Nó

Antes de tudo, é importante reconhecer que Mike Flanagan conseguiu se sair bem da árdua missão de adaptar o romance publicado em 2013, dando continuidade à história da família Torrance e, ao mesmo tempo, não ignorar a existência do filme de 1980 e reconhecer sua importância canônica. Como diretor e roteirista, Flanagan se mantem bem fiel ao material original, mas ainda se assume como continuação direta da obra de Kubrick.

Doutor Sono emula, referência e recria O Iluminado quando precisa invadir esse seu universo para lidar com os traumas de Dan e sua tentativa de redenção, tendo que enfrentar seus medos e os fantasmas do passado. Tudo que é trazido de volta da obra é muito bem trabalhado e homenageia bem o diretor. Ao mesmo tempo, temos uma mudança da maneira como entendemos Jack Torrance, se aproximando do livro de Stephen King. 

A tragédia pessoal que Dan passa o torna capaz de se conectar com seu pai e, no filme, em uma reunião de Alcoólicos Anônimos, é revelado isso por ele. Temos a humanização de seu pai, o filho conseguindo olhar para o pai como pessoa e não como monstro. Assim, é feita a união das duas versões.

Dan Torrance em cena recriada de O Iluminado

Ainda que a presença de O Iluminado seja muito forte graças ao peso de Kubrick e de King, Flanagan apresenta estilo próprio quando sai disso e aborda a trama do Verdadeiro Nó. Aqui, ele consegue apresentar bem os elementos bizarros do livro Doutor Sono, criando um ótimo e intrigante suspense em cima da “seita”. Faz tudo isso com uma direção precisa e manipuladora – como já havia mostrado, principalmente, em O Espelho (2013), Hush: A Morte Ouve (2016) e, em uma das melhores adaptações do mestre do terror, Jogo Perigoso (2017).

Ewan McGregor faz uma ótima atuação e consegue passar bem todo o peso que os acontecimentos no Hotel Overlook tiveram em Dan Torrance. Aqui não temos apenas uma história sobre fantasmas e traumas, mas também uma história sobre vício, recuperação e empatia. Dan tem que passar por tudo isso e lutar manter sua dignidade humana, deixando o passado para trás. 

“Agora, você precisa me ouvir. O mundo é um lugar faminto, um lugar perigoso e um lugar escuro” - Dan Torrance

Rose The Hat

Porém, o grande destaque em atuação é Rebecca Ferguson, como Rose The Hat. Ela rouba a cena com uma personagem manipuladora, intrigante e demoníaca do Verdadeiro Nó. Ela é o grande obstáculo do filme ao iniciar sua caça à iluminada Abra – com boa atuação da Kyliegh Curran. A menina Abra Stone é responsável por conectar os arcos de Rose e Dan e sua relação com o Torrance é forte e emocionante, culminando no confronto final dentro do único cenário possível dentro desse universo. Os demais personagens são funcionais e cumprem bem o seu papel no filme. 

A trilha sonora pulsante durante todo o filme ajuda a criar clima de tensão e ansiedade durante todo o filme, além da cinematografia de Michael Fimognari passar a sensação de mistério e com sua paleta cinzenta e fria. 

Abra Stone

Com 2 horas e 31 minutos, Doutor Sono é um pouco cansativo, principalmente porque o diretor não tem pressa e trabalha todos os elementos do universo e nuances dos personagens com calma. Por mais lento que seja, o filme compensa com ótimo desenvolvimento de personagens – assim como o diretor fez na ótima série da Netflix, A Maldição da Residência Hill (2018) – e criação de suspense, ainda que demore tempo demais para entrar no terceiro, e derradeiro, ato.

Doutor Sono é um filme digno da grandeza de tudo que o cerca. Flanagan faz o melhor trabalho possível para adaptar o romance de 2013 e, ao mesmo tempo, fazer uma sequência de O Iluminado, de King e Kubrick, permitindo-os coexistirem. É uma obra que reflete muito sobre o psicológico, como traumas e perdas podem afetar uma vida, e sobre redenção, como é importante deixar o passado para trás e guardado em caixas.

Confira o trailer legendado de Doutor Sono: