Em “MAGDALENE”, FKA twigs fala sobre a resiliência, solidão e maturidade

Por Camila Cetrone

Após três anos de hiato e uma longa recuperação de uma doença severa, a artista inglesa finalmente consegue ganhar grande destaque na indústria da música e é cotada como uma das melhores artistas de 2019

Em 2016, FKA twigs lançava “Good To Love”, um single minimalista e mais limpo se comparado ao restante do trabalho da artista. Um ano antes, em 2015, ela colocou no mundo as cinco faixas, mais um curta-metragem conceitual, que compõem o EP “M3LL155X”. Com “Good To Love”, especulava-se um retorno de o início de um novo projeto, o que não foi o caso. Diversos projetos foram adiados por problemas com Tahlilah Debrett Barnett, a pessoa por trás da persona de twigs. A cantora de 31 anos havia descoberto que estava com tumores uterinos, chamados de fibroides, que a limitaram tanto física como artisticamente. 

Em entrevista recente a Zane Lowe, da Apple Music, a artista conta que sentia limitações e que seu corpo não parecia funcionar da maneira como costumava. “Por fora parecia que eu estava dando muito duro, mas por dentro eu sentia que estava decepcionando ao meu time e a mim mesma”, explica. Por conta das fibroides, precisou abandonar os palcos, o estúdio e até mesmo o pole dance. 

Em 2019, totalmente recuperada, ela retorna aos holofotes com “MAGDALENE”, um álbum tão potente e visceral que conseguiu impactar diretamente a crítica e o grande público. Com ele, o álbum já é apontado como um dos melhores lançamentos do ano. Nas nove faixas que formam o trabalho, twigs entregou um grito de libertação que é forte e impactante, mas um retrato totalmente pessoal e sensível. Essa é uma característica que sempre despontou no estilo da cantora: seja no som ou em seus vídeos esteticamente muito bem planejados e executados, twigs faz transbordar suas emoções mais vulneráveis e profundas, tudo isso de maneira destemida, delicada e sensual. Uma faixa que destaca bem esse viés no início de sua carreira é “Water Me” (2012).

A artista sempre foi muito certeira ao conseguir trazer mais do que simplesmente música, mas experiências sensoriais. Os cenários musicais são muito bem calculados e mesclam experimentalismos, beats eletrônicos e graves do R&B e hip-hop. twigs considera-se uma perfeccionista, e até mesmo os sons desconexos e os reverbs exagerados são muito bem pensados e se contextualizam com um cenário denso, caótico e pesado de suas instrumentais. A voz, por sua vez, carrega um tom soprano capaz de rasgar esse pano de fundo, contrastando com o tom sinistro e estranho e formando uma atmosfera catártica. 

De certa forma, a excentricidade expressa nas canções remetem à ousadia e ao processo criativo destemido da islandesa Bjork. O mesmo pode ser dito em relação ao empenho em transpassar parte das canções para o audiovisual. A estética portada por twigs, tanto em sua maneira de se apresentar quando em seus vídeos, trazem elementos surrealistas e muito abstracionismo, mas com uma simbologia forte e totalmente condizente ao ilustrar sua mensagem. 

O clipe de “cellophane”, faixa que fecha o disco, traz um vídeo emblemático e capaz de passar toda trajetória de Tahlilah rumo à sua recuperação. Ela começa com um olhar e uma postura indestrutível que performa uma coreografia no pole, até que acaba no chão, banhada em tinta rosa e um olhar perdido, como de quem se questiona: “será que serei capaz de voltar a ser como era antes?”. No álbum, “daybed” também fala sobre a vulnerabilidade do corpo ao estar fraco.

holly terrain” e “mary magdalene” retomam uma construção mais dançante e coreografada. Se comparada ao restante do álbum, “fallen alien” é a mais dissonante. A faixa apresenta uma twigs destemida, uma voz potente que ora se complementa ao piano e ora disputa com os beats eletrônicos estrondosos.

Outro pilar que pessoal que marca “MAGDALENE” é a perda, que resulta em uma autoconfiança e na maturidade adulta. Por meio de reverbs e sonoridades mais limpas, ela fala sobre a sensação de não ser suficiente ou de não se sentir completamente correspondida, como no caso de “sad day” e “mirrored heart”. 

Em meio a esse processo pessoal, twigs também sentiu grandes desafios pessoais a assolarem. Ainda para Lowe, ela explica que se sentiu muito solitária. “Me lembro de quando estava no hospital e meus amigos e minha família iam embora, e eu ficava sozinha, não porque ninguém me queria por perto, mas porque eventualmente é como você fica”, explica, adicionando ainda que a solidão, para ela, é um processo fundamental de criação. Portanto, “MAGDALENE” também exerce um papel de aceitação da solidão da própria artista. “A solidão pode ser revigorante quando você a aceita”, acrescenta. A faixa em que melhore dialoga sobre isso é “home with you”:

“I didn't know that you were lonely / If you'd have just told me I'd be running down the hills to be with you / […] I never told you I was lonely too”

MAGDALENE” é mais do que merecido retorno e ascensão da artista. É um trabalho executado com extremo cuidado e dedicação para comunicar, da primeira até a última canção, as dores de um coração partido e de um corpo fragmentado. É o grito de libertação após tanto tempo aprisionada dentro de si mesma. E é, também, o alívio de perceber que, sim, as coisas são capazes de ser como eram antes. Ou melhores.

Ouça o álbum "MAGDALENE", de FKA twigs: