O Irlandês (2019): Scorsese subverte o gângster ao lidar com envelhecimento e solidão

Por Bruno Botelho

Martin Scorsese é um dos melhores e mais aclamados diretores de todos os tempos, com diversas obras clássicas do cinema, como Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980). A temática gângster sempre foi bastante recorrente em sua filmografia, por causa de filmes como Caminhos Perigosos (1973), Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995) e Os Infiltrados (2006), que lhe rendeu seu primeiro Óscar de Melhor Diretor.

Em 2019, o diretor volta ao tema com O Irlandês, pela Netflix, que desde o início já causou expectativa por causa da volta de Scorsese ao tema que ajudou a consagrar sua carreira e também pela presença no elenco de Robert De Niro e Joe Pesci – parceiros de longa data do diretor – somados a Al Pacino e Harvey Keitel. Um encontro épico no cinema, o material dos sonhos de todo cinéfilo.

Felizmente, Martin Scorsese não decepciona e cria outro clássico instantâneo. Inspirado no livro I Heard You Paint Houses (2004), de Charles Brandt, o filme narra a história real do crime organizado na América do pós-guerra, contada pelos olhos do veterano da Segunda Guerra Mundial Frank Sheeran (Robert De Niro), um traficante e assassino que trabalhou ao lado de algumas das principais figuras do século 20. Se passando ao longo de décadas, o filme retrata um dos maiores mistérios não resolvidos da história americana: o desaparecimento do lendário chefe sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). Nisso, temos uma jornada pelo submundo do crime organizado.

Confira o trailer legendado:

Scorsese adora proporcionar ao espectador uma nova visão sobre algum retrato já estabelecido no imaginário popular. Em O Irlandês, o diretor subverte o glamour, exuberância e poder gângster que ele mesmo estimulou em sua filmografia.

O filme pode ser dividido em partes e, pode-se afirmar que ele é, na primeira parte, mais dinâmico, como em O Lobo de Wall Street (2013); enquanto em outras partes é mais contemplativo, como em Silêncio (2016). Dessa maneira, ele consegue unir dois opostos da carreira de Scorsese, o mais visceral do mundo gângster (como em Os Bons Companheiros) ao mesmo tempo que promove uma reflexão sobre o tema.

Ao longo de décadas, o filme mostra a jornada pela tentação irresistível do poder no mundo do crime até trabalhar as consequências disso e o inevitável arrependimento que surge. Temos, a princípio, como Frank Sheeran entrou para o mundo gângster ao criar laço de amizade com Russell Bufalino (Joe Pesci). Depois, somos introduzidos ao Jimmy Hoffa, que também cria uma forte amizade com Frank, e temos uma luta ainda mais incessante por poder, com a relação do crime organizado, política e os sindicatos nos Estados Unidos. Isso tudo até o desaparecimento de Jimmy e as consequências trágicas que todos sofrem, como a morte sem glamour e a solidão.

No começo do filme, já vemos Frank Sheeran, de Robert De Niro, em uma casa de repouso, velho e lidando com a solidão, em um plano que apresenta o personagem ao som de In the Still of the Night, de The Five Satins. Depois, o filme ganha contornos clássicos do diretor, que desenvolve com calma as relações dos personagens e apresenta fluidez na narrativa. Isso tudo até a parte final, onde Scorsese é brilhante e retrata com profundidade impressionante as consequências e retira todo o glamour envolto em seus personagens. Até mesmo a trilha sonora para e só retorna na última cena, com a mesma música inicial, In the Still of the Night, para exprimir toda a solidão de Frank:

“Então, antes que a luz me segure novamente com toda a sua força na calada da noite”.

É muito legal ver um diretor veterano como Scorsese não se perder nos seus próprios maneirismos. Pelo contrário, ele abraça inovações e reinvenções de narrativa e técnicas, sem deixar de lado seu estilo clássico de cinema.

Produção mais cara da carreira do diretor, O Irlandês custou por volta de 145 milhões de euros, principalmente por causa dos efeitos especiais impressionantes, que permitem que a história se passe ao longo de várias décadas com os mesmos atores. Com isso, temos versões rejuvenescidas de Joe Pesci, Robert De Niro e Al Pacino. Por mais que seja um pouco estranho no começo, os efeitos são muito bem feitos e mostram que Scorsese não parou no tempo e busca, sim, novas ferramentas que possam engrandecer sua obra.

Joe Pesci volta a atuar nesse filme e traz um personagem calmo e frio, ainda que seja calculista e perigoso, muito diferente dos personagens violentos e explosivos que marcaram sua carreira – inclusive ganhou Óscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1991 por Os Bons Companheiros – e o fizeram até virar um typecasting – termo em inglês para quando um ator fica fortemente identificado e associado com um determinado tipo de personagem ou um papel específico.

Robert De Niro está incrível. O ator relembra grandes atuações em filmes com o diretor, principalmente nos gângsters. Tudo que ele faz é muito natural, o dá mais veracidade à sua atuação. Mas o ponto principal nele está na progressão e na profundidade que ele dá ao personagem: de um criminoso para um velho frágil tendo que lidar com o peso da culpa.

Al Pacino é outra força impressionante no filme, também relembrando grandes atuações de sua carreira. Seu personagem demora algum tempo para ser inserido na trama, mas quando isso acontece ele divide a cena perfeitamente com De Niro e, muitas vezes, acaba roubando-a com momentos explosivos e de surtos do personagem – lembrando até mesmo o overacting (exagero na atuação) dele no ótimo Advogado do Diabo (1997).

Martin Scorsese sabe contar histórias como poucos no cinema. As 3 horas e 30 minutos – mais longo de sua carreira – nunca se tornam cansativas. Muito pelo contrário, o roteiro adaptado de Steven Zaillian (que tem em seu currículo A Lista de Schindler, de 1993 e Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de 2011) somado à direção minuciosa de Scorsese e a montagem fluida e impressionante de Thelma Schoonmaker (que é parceira recorrente do diretor), trazem um recompensador desenvolvimento do arco de todos os personagens e da história.

O filme faz um excelente trabalho estético, com tudo muito bem escolhido e colocado em tela para retratar as diferentes épocas, como excelentes figurinos, direção de arte e fotografia, que muitas vezes é nostálgica e melancólica.

O Irlandês, como um todo, é uma grande reflexão, sobre a vida e, de certa forma, do diretor sobre sua própria carreira. É um retrato do fim de uma época, sobre velhice, lealdade, amizade e escolhas da vida. O filme se encerra justamente com essas questões e o contraste da violência e poder apresentado durante a trama com envelhecimento, morte e solidão do final do filme. Frank Sheeran, no fim, leva consigo a culpa pelas suas escolhas, mas também a lealdade com seus amigos e seu passado grandioso. Ele tem que viver solitário “na calada da noite”.

O filme já está disponível na Netflix. Aproveite também para escutar sua trilha sonora: