Resenha | A Rosa Azul de Novalis: um ensaio sobre a solidão e aceitação humana

Por Paulo Ferreira

Dirigido por Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, já conquistou o prêmio de Melhor Filme na XV Panorama Internacional Coisa de Cinema e é estreia da Sessão Vitrine nessa quinta, 19 de dezembro nos cinemas e plataformas digitais

O filme semi documental provavelmente deve impactar muita gente que não está acostumada com um cinema mais experimental – a primeira cena mostrada é um ânus em close, contraindo-se enquanto seu dono, Marcelo Diorio, lê poesias em voz alta. Logo em seguida, o ator/personagem comenta com a câmera o motivo para aquele ritual. Deficiência de vitamina D, o que significa para ele tomar sol – algo que ele odeia – na língua, palmas das mãos e no cu.

O que se segue são pouco mais de 60 minutos de auto exposição de Marcelo que desnuda sua personalidade ante as câmeras, tanto no sentido literal como no sentido emocional da palavra. Mais difícil do que ver as cenas de sexo oral e anal explícitas talvez seja ver o personagem se abrir, expondo em seu interior sua humanidade crua.

O filme mostra diversas conversas que revelam o personagem de uma forma sem vergonha no sentido literal da expressão – a falta de pudor nos aproxima do personagem, que revela suas crenças esotéricas em astrologia e reencarnações, como ter sido o poeta alemão Novalis em sua vida passada. Suas tendências autodestrutivas, problemas familiares envolvendo sua homossexualidade, fantasias sexuais... Tudo é derramado ao espectador como leite de amêndoas em uma bacia de metal para um banho de assento – pode parecer específico, mas essa é uma das cenas do filme, em que Marcelo conta uma de suas desventuras sexuais.

A Rosa Azul de Novalis também é um ensaio sobre a solidão. Enquanto Marcelo fala de sua vivência de forma aberta, fica claro o isolamento pelo qual o personagem passa. E essa talvez seja uma das partes mais representativas do filme – a forma como muitos integrantes da comunidade LGBTQ+ sejam obrigados a ficar sozinhos. Sejam influenciados pela própria vivência com a família, a discriminação ou a violência, muitas pessoas passam por isso todos os dias – e é nesse momento que Marcelo deixa de ser uma bicha branca paulistana de classe média para representar cada pessoa transgênero brasileira que vive isolada emocionalmente por causa de qualquer tipo de opressão. Essas pessoas são, para usar o próprio termo usado por Marcelo, as "raposinhas desgarradas" da sociedade.

Enquanto o ânus é subvertido como algo sujo e indigno, A Rosa Azul de Novalis devolve seu verdadeiro significado: ele é apenas uma parte de cada um de nós, algo que nos aproxima e nos torna iguais. Atos sexuais são tratados com normalidade pela a sociedade contemporânea, mas infelizmente apenas dentro de relacionamentos heterossexuais. Esse é um filme de aceitação. Talvez seja difícil de ser visto, mas não pelo fator sexual, e sim pelo fator emocional. Afinal, todos temos um cu.

O filme, que estreia hoje, é vencedor de diversos prêmios nacionais e internacionais, com direção de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. Ele faz parte do projeto Sessão Vitrine, que faz estreia simultânea nos cinemas e plataformas digitais.