Resenha | Ford vs Ferrari: Entre a emoção e a velocidade

Por Paulo Ferreira

Entre histórias originais (Paixão Muda), biografias (Johnny & June) e adaptações (Logan), o diretor James Mangold já se provou um diretor muito versátil. Não é nenhuma surpresa que ele seja o diretor perfeito para contar a história da criação do Ford GT40, o único carro americano a ganhar o circuito de LeMans, na França.

Após a Ferrari recusar um acordo milionário com a Ford apenas para aumentar seu valor no mercado, o presidente da empresa resolve humilhar a montadora italiana no lugar onde ela mais brilhava: nas pistas de corrida. Especializada em carros populares, a Ford precisa buscar ajuda de fora para criar um carro competitivo o suficiente para o embate.

O filme é contado do ponto de vista dos dois principais "culpados" por essa façanha: o designer de carros Carroll Shelby e o mecânico/piloto Ken Miles. Mesmo que o filme traga uma grande quantidade de tecnicalidades sobre pneus, freios, motores e aerodinâmica, o que realmente assume o palco central da história é a amizade entre Shelby e Miles e como eles têm que lutar contra as interferências da Ford em seu projeto.

Graças à dinâmica da dupla e da química entre Matt Damon (Shelby) e Christian Bale (Miles), é muito fácil comprar a amizade entre os dois homens. Aliás, Miles é o personagem perfeito para Bale, que sempre muda totalmente. Em Ford vs Ferrari, Bale abusa do sotaque britânico, trejeitos e estilo de falar para desaparecer dentro do personagem -- o que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama.

Enquanto os dois homens lutam para construir o carro perfeito, o óbvio e raso vilão do filme é o especialista em relações públicas Leo Beebe (Josh Lucas) que, sem muitos motivos, faz de tudo para ganhar os louros pelas conquistas de Shelby. Muitas vezes ele até mesmo sabota a equipe da Ford, mesmo sabendo que uma derrota seria péssimo para a empresa que trabalha e, consequentemente, para ele mesmo.

Mas no que Ford vs Ferrari realmente brilha é a relação entre Ken Miles e os carros. Apaixonado por seu ofício, ele faz de tudo para criar o veículo mais veloz de sua carreira. Por isso, as cenas de corrida são realmente espetaculares. Mesmo com toda a agressividade e velocidade, é a atuação de Christian Bale que vende todas as emoções de participar de uma corrida de resistência como as 24 Horas de Daytona ou a principal atração do filme, as 24 Horas de LeMans.

A produção de Ford vs Ferrari recriou completamente o percurso de LeMans para a gravação do filme a partir de muita pesquisa e imagens de arquivo. Junte a isso uma mixagem de som impressionante (um dos fortes concorrentes da categoria no Oscar), a atuação de Bale, uma edição de ritmo perfeito e um roteiro que traz incertezas a cada curva e você tem a receita de uma das melhores corridas já criadas para um longa-metragem.

Mesmo com mais de 2h30 de duração, Ford vs Ferrari consegue prender o espectador facilmente graças às boas atuações e tramas secundárias decentes, muito bem amarradas pela direção firme de Mangold e uma edição ágil. Um dos grandes filmes de 2019 e com certeza um longa obrigatório para ser visto antes da premiação do Oscar.