Resenha| História de um Casamento: o retrato as dores conjugais nos dias de hoje

Estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson, longa aborda o amor (e o fim dele) através da atual ótica do divórcio

Por Camila Cetrone

Lançado pela Netflix, História de um Casamento pode ser considerada como a vitrine do diretor e roteirista Noah Baumbach com vista para um público mais amplo. Mas não é um novato: seu nome já é muito conhecido no ramo do cinema independente estadunidense, principalmente depois que "Frances Ha" (2012) ganhou o título de cult contemporâneo. Com a possibilidade de estrear diretamente na Netflix, abrem-se os espaços e a chance de maior audiência.

Com um elenco estrelado por Scarlett Johansson e Adam Driver (os dois já colaboraram juntos inúmeras vezes ao longo da filmografia de Baumbach), o filme narra a história de um casal que está prestes a se divorciar. Nicole recebe uma proposta para estrelar uma série de televisão em Los Angeles e quer deixar o marido, o diretor de teatro Charlie. Os dois têm um filho pequeno, Henry, o que torna a situação ainda mais difícil. Logo, eles começam a cair em brigas jurídicas e burocráticas capazes de desumanizar um ao outro em troca da custódia da criança.

Uma das teorias acerca do filme é de que o roteiro seja autobiográfico. Nele, Noah parece narrar o fim de seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem ficou casado por 8 anos. Atualmente, ele é companheiro de Greta Gerwig, musa protagonista de seu maior sucesso cinematográfico e concorrente em diversas categorias de premiações deste ano. A história teria sido um triângulo amoroso, fato que é usado para embasar a personagem masculina do cineasta.

O que o roteiro nos apresenta de Nicole e Charlie juntos é apenas um pequeno vislumbre. A realidade rasga ao meio o espectador que imaginou que teria, pelo menos, meia hora da história de um casal apaixonado. Quando um começa a descrever o outro em off e cenas do cotidiano passam pelos olhos do público, é esperado um pensamento que encarna o amor romântico, e não o resgate de como essas identidades pareciam ser antes de tudo descarrilar. Essa escolha do diretor já prepara o espectador para o que está por vir.

Johansson e Driver entregam atuações viscerais, ao mesmo tempo que naturais e extremamente críveis. Seus pontos de vistas e a maneira como encarnam seus ideais na tela são capazes de despertar empatia a tal ponto que é difícil escolher um lado certo e um errado. Isto porque ambos os personagens apresentam sentimentos extremamente reais: o medo de serem como os próprios pais, a dor da traição, a ameaça do egocentrismo. Para citar alguns.

História de um Casamento se mostrou uma produção forte o suficiente para ganhar indicações em todas as premiações cinematográficas. Seus concorrentes, no entanto, não a torna necessariamente ofuscável, mas levam propostas mais interessantes e de maior peso aos jurados e ao público. As chances de Driver e Johansson caem por terra; os dois veem suas estatuetas serem entregues ao conturbado coringa de Joaquim Phoenix e a Judy Garland de Renée Zellweger. Porém, quem não cai por terra é Laura Dern, a favorita para a estatueta de Atriz Coadjuvante por sua ousada atuação como a advogada Nora Fanshaw, que auxilia Nicole na separação.

Não fosse a forte influência da balança que pende entre "1917" e "Era Uma Vez em... Hollywood", o roteiro original de Baumbach talvez tivesse chances de receber a estatueta. Perfeccionista, o diretor não é um dos que dão margem à improvisação e cada momento do enredo, desde falas a movimentos corporais, foi milimetricamente calculado. Tanto que a cena de briga entre os dois protagonistas, considerada como o clímax do filme, foi gravada pelo menos 50 vezes.

Randy Newman faz um trabalho interessante com a trilha sonora. Assim como o nome escolhido para o filme, as notas e acordes metodicamente esperançosos são contraditórios. Parece que a qualquer momento um casamento ou um momento de felicidade conjugal está prestes a acontecer. Esse momento nunca chega, afinal; o público fica o tempo todo esperando por um "final feliz" — que acaba acontecendo, mas não dá maneira convencional. Mas isoladamente, a trilha essa mesma trilha soa insossa e melodramática ao excesso.

O final feliz proposto pelo diretor foge do casal que acaba o filme caindo de amores um pelo outro. A paixão é substituída pelo respeito e pela sensação de continuidade de um laço ligado agora por um elemento híbrido: o filho. Esse é o cordão umbilical que liga essas duas pessoas e que permite que ambas mantenham a admiração uma pela outra. Sem dúvidas, um desfecho muito mais cabível ao presente.

História de um Casamento fala não a casais despedaçados, mas às mães que cansaram de deixar projetos pessoais de lado para caber na estrutura patriarcal da família nuclear. Fala aos filhos e filhas de uma geração que aprendeu a ver como comum os recomeços dos pais; e que sofreu com a desilusão quanto ao amor eterno. Fala sobre como o relacionamento não é só sobre amor, e de como ele sozinho não basta. É sobre humanizar as relações amorosas e fazer entender que o ato de deixar ir, este também, pode ser um ato necessário para manter certas chamas acesas.